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O varino Sou do Tejo

A diversidade de embarcações tradicionais utilizada no Estuário do Tejo foi de tal modo ampla que se pode considerar um dos mais importantes conjuntos patrimoniais flutuantes portugueses e europeus (Fernandes & Pinto 2013). Fragatas, varinos, faluas, cangueiros, botes, botes de fragata e botes de pinho, barcos de água acima, canoas e catraios, instituíram-se como elementos simbólicos das populações ribeirinhas e tornaram-se valores patrimoniais representativos da cultura da região estuarina e daí rio acima.

De entre todas essas embarcações o varino, a que também se chamava “barco de bica” dada a forma da proa, tem linhas subtis e é profusamente decorado. Sendo uma embarcação de carga de menores dimensões que a fragata possui, contrariamente a esta, proa arqueada e um fundo chato, que lhe permite navegar em zonas de pouca profundidade mas, tal como ela, tem um só mastro com caimento para a ré. Aparelha normalmente uma vela latina triangular e uma ou duas velas triangulares de estai, à proa. A sua designação terá origem nos ovarinos, embarcações de Ovar, das quais se pensa ser um descendente que terá chegado ao Tejo no início do século XIX. Não é pois de estranhar que muitos tenham sido construídos aí e que outros, ainda que o tenham sido em Almada, nos estaleiros da Mutela, tivessem saído das mãos de experimentados carpinteiros navais ovarenses. A sua actividade, bem como a das demais embarcações do Estuário do Tejo, decaiu após a construção da ponte de Vila Franca de Xira e o aparecimento de alternativas rodoviárias de transporte. Em meados da década de sessenta, após a construção da ponte entre Lisboa e Almada, as embarcações tradicionais do Tejo passaram a apodrecer em diferentes docas ao redor do estuário e só a preocupação patrimonial de alguns, entre os quais cumpre fazer referência aos estaleiros navais de Jaime Ferreira da Costa & Irmão, Lda. de Sarilhos Pequenos, as fez recentemente renascer para usos turísticos e de lazer. Bem hajam!

Compreende-se pois que só a entrada a bordo do varino “Sou do Tejo” constitua visita a um objecto de valor patrimonial, mas viajar nele é sem dúvida um privilégio.

Recentemente recuperado por Mestre Jaime Costa, actual proprietário do Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos, o “Sou do Tejo” renasceu para novas funções. Modernamente equipado, no que respeita à segurança e ao conforto, passeia pelo estuário todos aqueles que gostam de viver emoções passadas, tornando-se turistas no espaço e no tempo.

 

Bibliografia

 Fernandes A. & Pinto M. 2013, A diversidade de Embarcações Tradicionais do Estuário do Tejo, Instituto Politécnico de Santarém, acessado em 8-JUN-2016, <http://www.ancruzeiros.pt/sites/default/files/artigos/_FOLHA%20N%C2%BA06-2013_Embarca%C3%A7%C3%B5es%20tradicionais%20do%20estu%C3%A1rio%20do%20Tejo.pdf>

Neves J.O. 2013, Fragatas e Varinos do Tejo, Instituto Politécnico de Santarém, acessado em 8-JUN-2016, <http://www.ancruzeiros.pt/sites/default/files/artigos/FOLHA%20N%C2%BA13-2013_Fragatas%20e%20Varinos%20do%20Tejo.pdf>